Quando o público adentra o familiar

oscilações, ambivalências e inospitalidades nas representações do embrião humano

  • Luís Gouveia
  • Flávio Alves Martins
Palavras-chave: Procriação Medicamente Assistida, Embrião humano, Regimes de envolvimento

Resumo

A Procriação Medicamente Assistida (PMA), enquanto domínio de intervenção médica, permite a concretização do projeto parental fora do útero da progenitora, em contexto laboratorial. Na sua trajetória terapêutica, o casal é envolvido no discurso biomédico enquanto formato cognitivo e no conjunto de procedimentos e dispositivos técnicos que servem de suporte ao formato de envolvimento na intervenção clínica, estendendo-se a uma conceção do embrião enquanto recurso mobilizado para o fim último: a concretização da gravidez. Não obstante esse envolvimento em plano, enquanto formato de coordenação da ação, aquilo que é a trajetória terapêutica dos beneficiários é suscetível de se desenvolver em composição com outros formatos atuantes, em particular naquilo que são os vínculos emocionais, de caráter íntimo, que são passíveis de emergir na relação com os embriões. A par das oscilações nos significados atribuídos ao embrião, essas gramáticas mais íntimas são sujeitas a conflituar com as lógicas atuantes dos profissionais médicos, informadas por orientações normativas distintas. A partir de um conjunto de dados recolhidos no âmbito de uma pesquisa de investigação em torno dos significados plurais atribuídos ao embrião humano, pretende-se explorar o modo como essas oscilações nas representações se manifestam, mas igualmente como as tensões entre formatos de envolvimento com o embrião são suscetíveis de eclodir nas trajetórias dos beneficiários na relação com os profissionais de PMA, veiculando, nos juízos que constroem, experiências inóspitas (que eclipsam vínculos mais íntimos) decorrentes de dispositivos (técnicos e relacionais) que moldam o percurso terapêutico.

Publicado
2021-01-27
Seção
Artigos