Os modos discursivos de legitimação das visões legislativas sobre a indústria no Congresso Nacional brasileiro

Autores

DOI:

https://doi.org/10.59901/2358-6516/v28n1a6

Palavras-chave:

Indústria, Congresso Nacional, Sociologia pragmática francesa

Resumo

O objetivo do artigo é analisar os modos discursivos de legitimação das visões legislativas sobre a indústria brasileira. Utilizou-se o conceito de “gramática social”, compreendido como o conjunto de críticas e justificações histórica e coletivamente elaborado por grupos sociais em contextos de disputa política e os conceitos de “crítica” e de “justificação” de Boltanski e Thévenot (1999, 2006). Analisaram-se duas sessões sobre o lançamento da Agenda Legislativa da Indústria ocorridas no Congresso Nacional com o auxílio teórico-metodológico da análise do discurso (Maingueneau, 2015) e da análise de conteúdo (Spink & Lima, 1999). Como resultado, identificou-se a manifestação discursiva de três gramáticas sociais: a gramática da “produção”, da “competição” e da “autorregulação”. Os discursos da gramática social da “produção” procuram legitimar o compromisso social entre o Estado e a estrutura produtiva. Os discursos da gramática da “competição” enfatizam a redução dos custos de produção e o papel de um Estado protetivo, de maneira a aumentar a competitividade da estrutura produtiva brasileira em relação à cadeia de produção internacional. Os discursos da gramática da “autorregulação”, herdeiros em parte dos discursos neoliberais da década de 1990, defendem a autonomia absoluta do “mercado” em relação ao Estado e a capacidade do “mercado” em definir unilateralmente as políticas a serem priorizadas em relação à estrutura produtiva. Conclui-se argumentando que a análise dos modos discursivos de legitimação das visões legislativas sobre a indústria possibilita a compreensão da pertinência da dimensão simbólica e moral nos debates sobre a estrutura produtiva brasileira.

Biografia do Autor

  • Vinicius Foletto Bevilaqua, UFSM

    Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria.

Referências

AVRITZER, Leonardo. (2000). Teoria democrática e deliberação pública. Lua Nova. São Paulo: USP. V. s/i, n. 50, p. 25-46.

BENSON, Jonathan. (2019). Deliberative democracy and the problem of tacit knowledge. Politics, Philosophy & Economics. Nova Iorque: SAGE Publishing. V. 18, n. 1, p. 76-97.

BLOK, Anders. (2013). Pragmatic sociology as political ecology: on the many worths of nature(s). European Journal of Social Theory. Nova Iorque: SAGE Publishing. V. 16, n. 4, p. 492-510.

BLOKKER, Paul. (2011). Pragmatic sociology: theoretical evolvement and empirical application. European Journal of Social Theory. Nova Iorque: SAGE Publishing. V. 14, n. 3, p. 251-261.

BOLTANSKI, Luc. (2009). De la critique: précis de sociologie de l'émancipation. Paris: Gallimard.

BOLTANSKI, Luc. (2000). El amor y la justicia como competências: tres ensayos de sociología de la acción. Buenos Aires: Amorrortu Editores.

BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Éve. (2009). O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes.

BOLTANSKI, Luc; THÉVENOT, Laurent. (1999). The Sociology of critical capacity. European Journal of Social Theory. Nova Iorque: SAGE Publishing. V. 2, n. 3, p. 359-377.

BOLTANSKI, Luc. (2006). On justification: economies of worth. Princeton: Princeton University Press.

BOITO, Armando. (2018). Reforma política e crise política no Brasil: os conflitos de classe nos governos do PT. Campinas: UNESP.

BRESSER-PEREIRA, Luis. (2017). As duas formas de capitalismo: desenvolvimentista e liberal econômico. Brazilian Journal of Political Economy. São Paulo: Centro de Economia Política. V. 37, n. 4, p. 680-703.

BURNS, Thomas; LEMOYNE, Terri. (2007). Como os movimentos ambientalistas podem ser mais eficazes: priorizando temas ambientais no discurso político. Ambiente & Sociedade. Campinas: ANPPAS. V. 10, n. 2, p. 61-82.

CEFAÏ, Daniel. (2009). Comment se mobilise-t-on? Sociologie et societés. Montreal: Érudit. V. 41, n. 2, p. 245-269.

COHEN, Joshua. (2003). Deliberation and democracy legitimacy. In: MATRAVERS, Derek; PIKE, Jon (Orgs.), Debates in contemporary political philosophy: an anthology. Nova Iorque: Routledge.

COSTA, Jean; NETO, Mário. (2021). Em busca do consenso empresarial: a crise do desenvolvimentismo nas páginas da revista Vida Industrial. História Econômica & História de Empresas. São Paulo: ABPHE. V. 24, n. 2, p. 429-462.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. (2016). A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo.

DOLNÝ, Branislav. (2011). Possible application of deliberative democracy in parliament. Human Affairs. Berlim: De Gruyter. V. 21, n. 4, p. 422-436.

ELSTER, Jon. (2010). Décisions individuelles et decisions collectives. Social Science Information. Nova Iorque: SAGE Publishing. V. 49, n. 1, p. 11-28.

FARIA, Cláudia. (2000). Democracia deliberativa: Habermas, Cohen e Bohman. Lua Nova. São Paulo: USP. V. s/i, n. 49, p. 47-68.

FILHO, Alcides. (2007). Melhoramentos, reaparelhamentos e modernização dos portos brasileiros: a longa e constante espera. Economia e Sociedade. Campinas: UNICAMP. V. 10, n. 3 (31), p. 455-489.

FREITAG, Michel. (2007). Five Answers. European Journal of Social Theory. Nova Iorque: SAGE Publications; V. 10, n. 2, p. 261-276.

FREITAG, Michel. (1986). Dialectique et société: introduction à une théorie générale du Symbolique. vol. 1. Montreal: Editions Saint-Martin.

GARDIN, Bernard. (1976). Discours patronal et discours syndical. Langages. Paris: Armand Colin. V. 10, n. 41, p. 13-46.

HABERMAS, Jurgen. (2003). Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

HARVEY, David. (2008). O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Edições Loyola.

HOLDEN, Meg; SCERRI, Andy. (2015). Justification, compromisse and test: developing a pragmatic sociology of critique to understand the outcomes of urban redevelopment. Planning Theory. Nova Iorque: SAGE Publishing. V. 14, n. 4, p. 360-383.

LEMIEUX, Cyril. (2009). Le devoir et la grâce. Pour une analyse grammaticale de l'action, Paris: Economica.

LOVE, Joseph. (2011). Ideias e ideologias econômicas na América Latina, c. 1930-1990. In: BETHELL, Leslie (org.), História da América Latina: América Latina Colonial, vol. 8. São Paulo: EDUSP, Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão.

KATZ, Claudio. (2016). Neoliberalismo, neodesenvolvimentismo, socialismo. São Paulo: Expressão popular/ Perseu Abramo.

KAUFMANN, Laurence. (2012). Agir en règle: Le pari gramatical de la sociologie pragmatique a l’epreuve de la critique. Raison publique. Paris: Éditions Raison publique. V. 16, n. s/i, p. 227-263.

KREPPEL, Amie; HIX, Simon. (2003). From “grand coalition” to left-right confrontation: explaining the shifting structure of party competition in the European Parliament. Comparative political studies. Nova Iorque: SAGE Publishing. V. 36, n. 1/2, p. 73-96.

MAINGUENEAU, Dominique. (2015). Discurso e análise do discurso. São Paulo: Parábola Editorial.

MARTINS, Carlos. (2011). Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina. São Paulo: Boi Tempo.

MORALES, José; FERNÁNDEZ, Ernesto. (2008). El problema de las preferencias em la democracia: un acercamiento desde la óptica de la racionalidad acotada. Papers. Barcelona: Universitat Autònoma de Barcelona. V. 88, n. s/i, p. 81-100.

MORIN, Jean-Fréderick; GOLD, E. Richard. (2010). Consensus-seeking, distrust and rhetorical entrapment: the WTO decision on access to medicines. European Journal of International Relations. Nova Iorque: SAGE Publishing. V. 16, n. 4, p. 563-587.

NASSIF, André. (2008). Há evidências de desindustrialização no Brasil? Brazilian Journal of Political Economy. São Paulo: Centro de Economia Política. V. 28, n. 1 (109), p. 72-96.

ODZUCK, Eva; GÜNTHER, Sophie. (2022). Digital campaigning as a policy of democracy promotion: applying deliberative theories of democracy to political parties. Z Politikwiss. Nova Iorque: Springer Publishing. V. 32, n. s/I, p. 507-530.

PERISSINOTTO, Renato. (2014). O conceito de Estado Desenvolvimentista e sua utilidade para os casos brasileiro e argentino. Revista de Sociologia e Política. Curitiba: UFPR. V. 22, n. 52, p. 59-75.

REGO, Marcos; JUNIOR, José. (2017). Projeto de implantação da indústria automotiva no Brasil: por uma abordagem sob a ótica da teoria dos stakeholders. Organizações & Sociedade. Bahia: NPGA. v. 24, n. 81, p. 216-236.

REINERT, Erik. (2016). Como os países ricos ficaram ricos ...e por que os países pobres continuam pobres. Rio de Janeiro: Contraponto; Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento.

REIS, Fábio W. (2010). Política e racionalidade: problemas de teoria e método de uma sociologia crítica da política. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais. Disponível em: http://books.scielo.org . Acesso em: 7 de nov. de 2025.

QUIVY, Raymond; CAMPENHOUDT, Luc. (2013). Manual de investigação em ciências sociais. Lisboa: Gradiva.

SCHAPIRO, Mario. (2013). O que a política industrial pode aprender com a política monetária? Novos Estudos (CEBRAP). São Paulo: CEBRAP. V. 96, n. s/i, p. 117-130.

SCHATZKI, Theodore. (2006). On organizations as they happen. Organization Studies. Nova Iorque: SAGE Publishing. V. 27, n. 12, p. 1863-1873.

SPINK, Mary; LIMA, Helena. (1999). Rigor e visibilidade: a explicitação dos passos da interpretação. In: SPINK, Mary (Org.), Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano: aproximações teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez.

STEPHENSON, Matthew. (2011). Information acquisition and institutional design. Harvard Law Review. Nova Iorque: JSTOR. V. 124, n. 6, p. 1422-1482.

THÉVENOT, Laurent; MOODY, Michael; LAFAYE, Claudette. (2000). Forms of lavuing nature: arguments and modes of justification in French and American environmental disputes. In: LAMONT, Moody; THÉVENOT, Laurent (Orgs.), Rethinking comparative cultural sociology: repertories of evaluation in France and the United States. Cambridge: Cambridge University Press.

WARNTJEN, Andreas. (2010). Between bargaining and deliberation: decision-making in the Council of the European Union. Journal of European Public Policy. Reino Unido: Taylor & Francis Group. V. 17, n. 5, p. 665-679.

WASSERMAN, Cláudia. (2017). A teoria da dependência: do nacional-desenvolvimentismo ao neoliberalismo. Rio de Janeiro: FGV editora.

Downloads

Publicado

2026-03-20

Edição

Seção

Artigos Livres